quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

"A gente esquece as vítimas da violência", diz arcebispo

Dom Orlando Brandes afirma que sistema carcerário 'vingativo' não recupera presos, mas também é preciso amparar quem sofre com a criminalidade

O arcebispo de Londrina, Dom Orlando Brandes, explicou na tarde desta terça-feira (24) em entrevista ao Portal Bonde as intenções dos católicos com a Campanha da Fraternidade 2009, cujo tema é "A Fraternidade e a Segurança Pública" e lema "A Paz é Obra da Justiça", frase extraída do livro bíblico do profeta Isaías, capítulo 32, versículo17.

"É preciso haver a justiça dos direitos humanos, da vida plena, dos bons salários, da escola para todos, porque a violência está ligada à miséria, à fome, ao tráfico de drogas. Não há paz sem igualdade social. Por isso, temos que trabalhar com as causas da violência", explicou Dom Orlando.

Como metas para as paróquias de Londrina, o arcebispo disse que a intenção é participar mais dos conselhos comunitários que englobam diversos setores, como saúde, educação, cultura. "Também queremos aprimorar o trabalho da Pastoral Carcerária, que hoje já é muito bom". Para Dom Orlando, também é preciso haver justiça no sistema carcerário. "Queremos um sistema carcerário educativo e não vingativo, um sistema que recupere os presos porque hoje as pessoas saem pior do que entraram", explicou.

No entanto, questionado sobre as críticas de que presos e acusados de crimes acabam tendo maior assistência do que as próprias vítimas, o arcebispo acabou por fazer um mea culpa. "A gente esquece muito das vítimas, por isso um dos pontos altos desta Campanha da Fraternidade será o auxílio às vítimas".

Segundo ele, a ajuda virá de três formas: religiosa, psicológica e financeira. "Vamos ouvir mais essas pessoas, para que façam seus desabafos; vamos falar sobre a importância de perdoar, mas também vamos ajudar financeiramente", explicou o Arcebispo.

Oficialmente a CF será lançada em Londrina nesta sexta-feira (26), durante uma missa celebrada na Catedral. As paróquias de igrejas católicas da cidade, no entanto, já começaram a promover discussões sobre segurança pública e formas de reduzir a violência. A missa de sexta-feira será celebrada pelo ex-arcebispo de Londrina, Dom Albano Cavallin, já que Dom Orlando participará de um ordenação de novos padres em Campo Mourão.

Leia os principais trechos da entrevista:

Bonde: Como devemos entender o lema da CF deste ano: "A Paz é Obra da Justiça"?

Dom Orlando: Queremos dizer que a paz é fruto da justiça, porque sem justiça social não há paz. É preciso a justiça dos direitos humanos, da vida plena, da escola para todos, dos bons salários.

Bonde: Isso se encaixa perfeitamente à realidade brasileira?

Dom Orlando: Se aplica sim, porque a violência está ligada à miséria, à fome, ao narcotráfico. Por isso queremos trabalhar as causas da violência.

Bonde: Como será feito isso?

Dom Orlando: Não é só pedindo mais policiamento – sabemos que isso também é necessário, mas não é só isso. Precisamos criar uma cultura de paz, de respeito dos direitos humanos, de vida digna, de política justa. Também queremos atenção especial ao sistema carcerário, para que seja educativo e não vingativo.

Bonde: De quem é a responsabilidade por fazer isso?

Dom Orlando: É um conjunto de responsabilidades. Cada cidadão é co-responsável por diminuir a violência, diminuindo, exemplo, os casos de violência doméstica contra as mulheres, as crianças e os velhos; as pessoas também podem participar de conselhos comunitários, fazer mutirões e contribuir muitos.

Bonde: E o poder público?

Dom Orlando: As autoridades também têm uma responsabilidade fundamental. A primeira delas é promover mudanças no sistema carcerário, que não recupera ninguém: o bandido sai pior do que entrou; em segundo lugar, os policiais também devem ter uma postura menos repressiva e mais de colaboração e não usar só de violência. E ainda também o fator psicológico, que é a neurose em relação à violência.

Bonde: Neurose?

Dom Orlando: Sim. É uma coisa que todo mundo sente. Em Londrina – até a Folha de Londrina publicou uma matéria sobre isso – 80% das pessoas têm medo da violência na cidade. Isso cria a indústria do medo, da qual fazem parte as empresas de cercas elétricas, câmeras de segurança, cachorros ferozes; então se vende mais armas para as empresas de vigilância.

Bonde: E como o poder público deve atuar na sua avaliação?

Dom Orlando: Não é só uma questão policial; a violência diminui à medida que aumenta a igualdade social; não pode haver segurança sem igualdade social. E outro fator importante é a família unida, estruturada, porque quem não é amado na família cresce com a violência interior. As escolas também têm um papel fundamental.

Bonde: A Igreja, concretamente, vai trabalhar como para reduzir a violência?

Dom Orlando: Temos várias propostas, como criar a comissão de Justiça e Paz; estar mais presente nos conselhos comunitários; e melhorar a pastoral carcerária que já faz um bom trabalho.

Bonde: Há uma crítica muito grande de que órgãos como a pastoral carcerária e o centro de direitos humanos atuam mais em favor de quem comete os crimes do que das vítimas desses crimes. O que o senhor diz em relação a isso?

Dom Orlando: Isso é verdade. A gente esquece muito as vítimas da violência. Mas uma dos pontos altos da campanha é auxiliar as vítimas, para que possam encontrar o perdão e perdoar quem lhes fez o mal. O perdão é muito melhor do que uma nova violência. Queremos que as vítimas sejam ouvidas, façam seu desabafo. Estamos nos colocando à disposição para auxílio religioso, psicológico e financeiro também, porque o homem não vive só de religião. Queremos ser solidários às vítimas.

Bonde: Outros pontos serão abordados durante a campanha da fraternidade deste ano?

Dom Orlando: Vamos discutir também a violência no trânsito, que mata muitas pessoas; segurança para nossas florestas; e temos que lembrar que a impunidade para os grandes criminosos é um fator de violência; quem tem dinheiro e poder não vai para a cadeia. Só os pobres, ladrões de ovos de galinha, é que vão.

Bonde: Como o senhor avaliou a Campanha da Fraternidade do ano passado, cujo tema foi a preservação da vida e a manifestação contra o aborto?

Dom Orlando: Muito positivo. Conscientizamos muita gente sobre a vida intra-uterina e o Congresso Nacional que ameaçava votar o projeto para descriminalizar o aborto não foi votado.

Fonte: Bondenews - 24/02/2009

Nenhum comentário: